A língua portuguesa e a identidade do assimilado em Angola: Algumas leituras a partir do conto “Mestre Tamoda”, de Uanhenga Xitu

  • Marcela Magalhães de Paula Centro Cultural Brasil - Italia
  • Lorena da Silva Rodrigues Universidade Federal do Ceará
Palavras-chave: Colonialismo, políticas linguísticas, literatura angolana, língua portuguesa

Resumo

Este trabalho visa apresentar uma análise do uso da língua portuguesa como idioma oficial do estado colonial lusitano, em confronto com a diversidade linguística dos países colonizados, especialmente Angola. Para tanto, analisar-se-á o conto «Mestre Tamoda», do escritor Uanhenga Xitu, para exemplificar e discutir as atitudes linguísticas dos falantes africanos do português. Ademais, averiguar-se-á o papel das políticas linguísticas públicas de Portugal e os processos de (tentativas de) aniquilamento e abolição das línguas autóctones africanas, bem como o modo como a língua portuguesa foi promovida e passou a servir de instrumento de opressão do poder colonial. No texto africano em questão, podemos observar o processo violento pelo qual os sujeitos autóctones foram submetidos em prol da implementação de uma série de medidas políticas que «vendiam» a ideia de civilização, mas que extinguiam ou tentavam diminuir as manifestações das culturas e línguas locais. Tamoda constrói sua identidade buscando, através da cópia dos hábitos e costumes do colonizador, um lugar na sociedade. No contexto lusófono, essa «invenção da cidadania» se deu subvertendo a ideia de que é o invadido que deve aceitar e se adequar aos valores «locais» do invasor e não o contrário. Assim, a língua e a cultura não poderiam apenas ser meramente impostas, mas elas teriam também que oferecer uma esperança de ascensão e ingresso na cidadania. Estas políticas públicas sofisticadas tornaram e tornariam viáveis o projeto moderno de governabilidade, por intermédio da imposição de instrumentos disciplinares, como a promoção da língua portuguesa.

Publicado
2021-06-28